Poderia dizer que esse era o projeto mais antigo em atividade na bancada (datado de 2011), com muitas idas e vindas, paralisações, mudanças de abordagem. Começou com uma adaptação de uma meshe do Flight Simulator 98, extraída através da ferramenta UMC (escrita pelo usuário do Papermodelers Plastic Bonsai), para evoluir para um scratch integral (utilizando os métodos de Rob Carleen), para ao final se transformar em um modelo colaborativo entre mim e o amigo Rata, meu parceiro de longa data em repaints e modelos.
Nesta primeira parte vamos abordar o histórico desse emblemático hidroavião que apesar de relativamente desconhecido do grande público, representa uma etapa evolucionária importante para o desenvolvimento do muito conhecido Consolidated PBY Catalina.
O Consolidated P2Y Ranger foi um hidroavião de patrulha marítima bimotor, projetado e construído pela Consolidated Aircraft Corporation para a Marinha dos Estados Unidos. Foi o primeiro monoplano de patrulha da Marinha dos EUA, e seu desenvolvimento representou um marco na aviação naval, estabelecendo a Consolidated como uma grande fabricante de aeronaves e pavimentando o caminho para os famosos PBY Catalina e PB2Y Coronado que serviram na Segunda Guerra Mundial.
Origens e Desenvolvimento Inicial (O XPY-1)
A história do P2Y começa em 28 de fevereiro de 1928, quando a Marinha dos EUA emitiu um contrato para a Consolidated projetar e construir um novo hidroavião monoplano para substituir a envelhecida série PN, fabricada pelo Naval Aircraft Factory. O projeto, que recebeu a designação interna Model 9 e a designação militar XPY-1, foi liderado pelos engenheiros Isaac M. Laddon e Holden C. Richardson.
A construção começou em março de 1928, e o XPY-1 realizou seu primeiro voo em 10 de janeiro de 1929 na Estação Aérea Naval de Anacostia, em Washington, D.C.. O XPY-1 era um grande monoplano de asa guarda-sol (parasol) com envergadura de 30,48 metros. Uma de suas características mais notáveis era a configuração trimotor: dois motores montados abaixo da asa e um terceiro motor montado em uma nacela acima da asa central. Esta configuração de três motores foi posteriormente estudada e rejeitada pela Marinha.
Apesar do sucesso do protótipo, a Consolidated perdeu o contrato de produção para a Glenn L. Martin Company, que apresentou um lance mais baixo. A Martin construiu nove aeronaves baseadas no projeto, designadas P3M-1 e P3M-2.
O Nascimento do Ranger (XP2Y-1)
Não se deixando abater pela perda do contrato, a Consolidated refinou seu projeto original. Em 26 de maio de 1931, a Marinha concedeu um novo contrato para um protótipo de uma versão melhorada. Este novo projeto foi designado internamente como Model 22 Ranger pela Consolidated e XP2Y-1 pela Marinha.
O XP2Y-1 era uma evolução significativa do XPY-1. Incorporava características do hidroavião comercial Model 16 Commodore, como a cabine de pilotagem totalmente fechada. A principal mudança foi a configuração da asa: manteve a grande asa guarda-sol de 30 metros, mas agora era um sesquiplano, ou seja, um biplano com uma asa inferior bem mais curta (13,8 metros) montada no topo da fuselagem. Esta asa inferior substituiu as longas estruturas que suportavam os flutuadores de estabilização do XPY-1. O XP2Y-1 também manteve a configuração trimotor, com dois motores radiais Wright R-1820-E1 Cyclone montados abaixo da asa superior e um terceiro motor montado acima dela.
O XP2Y-1 fez seu primeiro voo em 26 de março de 1932 na fábrica da Consolidated em Buffalo, Nova York. Após os testes iniciais, o terceiro motor acima da asa foi removido, consolidando o P2Y como um bimotor. A Marinha ficou impressionada com o desempenho da aeronave e, já em 7 de julho de 1931, antes mesmo do primeiro voo do protótipo, encomendou 23 unidades de produção, designadas P2Y-1.
Variantes de Produção
- P2Y-1: A versão inicial de produção. Todas as 23 aeronaves foram entregues entre dezembro de 1932 e junho de 1933. Eram bimotores (o terceiro motor foi descartado) e equipadas com motores Wright R-1820-86 Cyclone.
- P2Y-2: Uma modificação feita em pelo menos 21 dos P2Y-1 existentes. Envolvia a realocação dos motores para a borda de ataque da asa superior, em nacelas mais aerodinâmicas, o que reduzia o arrasto e melhorava o desempenho.
- XP2Y-2: Designação de um único P2Y-1 modificado para testes que levaram ao desenvolvimento do P2Y-3.
- P2Y-3: Uma nova encomenda de 23 aeronaves, entregues a partir de 1935. Eram semelhantes ao P2Y-2, mas equipados com motores mais potentes, os Wright R-1820-90 Cyclone, que produziam 750 hp cada. Um dos principais usuários foi o Esquadrão VP-7F.
- P2Y-1C: Versão de exportação para a Colômbia, entregue em 1932.
- P2Y-1J: Uma aeronave vendida para o Japão em 1935.
- P2Y-3A: Versão de exportação para a Argentina, com seis aeronaves entregues em 1937.
Histórico Operacional e Recordes
O P2Y Ranger provou ser uma aeronave robusta e confiável. Sua carreira foi marcada por voos de longa distância que quebraram recordes mundiais e demonstraram o poder da aviação naval americana.
* Voo para o Panamá: Em setembro de 1933, seis P2Y-1 do Esquadrão de Patrulha VP-5F, liderados pelo Tenente Comandante Donald M. Carpenter, realizaram um voo non-stop de Norfolk, Virgínia, até a Estação Aérea Naval de Coco Solo, na Zona do Canal do Panamá. A distância de 3.313 km foi percorrida em 25 horas e 19 minutos, estabelecendo um recorde de voo em formação.
* Voo para o Havaí: Em janeiro de 1934, outra formação de seis P2Y-1 do VP-10F, liderada pelo Tenente Comandante Knefler McGinnis, voou de São Francisco, Califórnia, até Pearl Harbor, no Havaí. A distância de 3.875 km foi coberta em 24 horas e 56 minutos, quebrando outro recorde mundial. O Presidente Franklin D. Roosevelt enviou um telegrama parabenizando a tripulação, chamando o feito de "a maior façanha do seu tipo na história da aviação".
Exportações
Além do serviço na Marinha dos EUA, o P2Y foi operado por outras forças aéreas:
* Colômbia: A Força Aérea Colombiana recebeu um P2Y-1C em 1932 e o utilizou até 1948, inclusive em operações durante o conflito com o Peru em 1932-33.
* Argentina: A Aviação Naval Argentina adquiriu seis aeronaves P2Y-3A, que foram entregues em 1937 e operaram durante os primeiros anos da Segunda Guerra Mundial.
* Japão: Uma aeronave P2Y-1J foi vendida ao Japão em 1935. Foi montada e avaliada pela Kawanishi, e seu projeto serviu como base para o desenvolvimento do hidroavião Kawanishi H6K "Mavis", que foi amplamente utilizado pela Marinha Imperial Japonesa durante a Segunda Guerra Mundial.
Fim de Carreira e Legado
Os P2Y Rangers permaneceram em serviço ativo na Marinha dos EUA até 1941. Com a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, eles foram retirados de serviço ativo e colocados em armazenamento, sendo substituídos por aeronaves mais modernas e capazes, como o Consolidated PBY Catalina.
Apesar de não terem visto combate na Segunda Guerra Mundial, o P2Y Ranger foi uma aeronave crucial para a história da aviação. Ele não só consolidou a posição da Consolidated como uma fabricante de primeira linha, mas também estabeleceu o conceito do hidroavião de patrulha monoplano de longo alcance que se tornaria fundamental para a Marinha dos EUA na guerra que se seguiria.
Na Aviação Naval Argentina
A história do Consolidated P2Y Ranger na Marinha Argentina é uma das mais fascinantes entre os operadores da aeronave, pois foi a Força que manteve o modelo em atividade por mais tempo e com maior destaque fora dos Estados Unidos. Tudo começou em 1937, quando a Argentina, buscando modernizar sua aviação naval e exercer uma presença mais efetiva em suas extensas costas, encomendou seis unidades da versão de exportação, que foram entregues entre agosto e setembro daquele ano. As aeronaves, batizadas com as matrículas MP-1 a MP-6, e posteriormente redesignadas como 2-P-1 a 2-P-6, foram montadas com grande cuidado nos talleres da Base Aeronaval de Puerto Belgrano, marcando o início de uma nova era para a patrulha marítima no país.
Ao serem incorporadas à Escuadrilla Naval de Patrulleros, com sede justamente em Puerto Belgrano, os Rangers rapidamente se tornaram o coração da vigilância aérea argentina. Sua principal missão era a de patrulhar o vasto Mar Argentino, acompanhar os movimentos da frota de superfície e garantir a soberania sobre as águas jurisdicionais. Eram aeronaves robustas e de longo alcance, capazes de passar longas horas sobre o oceano, o que as tornava ideais para um país com litoral tão extenso. Durante os primeiros anos, eles realizaram inúmeros voos de reconhecimento e treinamento, integrando-se perfeitamente à rotina da base e se tornando uma visão familiar nos céus da região.
O momento mais emblemático e histórico da carreira dos P2Y na Argentina aconteceu em 19 de fevereiro de 1940. Nesta data, três dos Rangers, identificados pelas matrículas 2-P-2, 2-P-5 e 2-P-6, decolaram da Base Aeronaval de Puerto Deseado sob o comando do Teniente de Navío Salustiano Mediavilla. Em uma missão ousada e cuidadosamente planejada, eles rumaram para o sul e sobrevoaram a costa da Ilha Soledad, no arquipélago das Ilhas Malvinas. Durante o voo, realizaram um detalhado registro fotográfico da região. Este ato marcou o primeiro voo da Aviação Naval Argentina sobre as Malvinas, um feito que carregava imenso peso simbólico e estratégico, demonstrando a capacidade técnica e a determinação da esquadra em alcançar pontos remotos do território reivindicado.
Pouco tempo depois, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, os P2Y ganharam uma nova e crucial função. A Argentina havia declarado sua neutralidade no conflito, e cabia à Marinha garantir que essa neutralidade fosse respeitada. Assim, os Rangers foram intensamente utilizados em missões de patrulha de neutralidade, vasculhando o Atlântico Sul em busca de possíveis violações por navios de guerra ou submarinos das potências beligerantes. Eles monitoravam o tráfego marítimo, investigavam contatos suspeitos e garantiam que as águas argentinas não se tornassem palco de confrontos. Essas patrulhas, muitas vezes longas e exaustivas, exigiram o máximo da tripulação e da aeronave, consolidando a reputação do P2Y como uma ferramenta confiável e indispensável para a defesa costeira durante todo o período da guerra.
A carreira dos seis Rangers argentinos se estendeu por mais de uma década, um período notável para uma aeronave que já era considerada obsoleta no final da década de 1930. Eles serviram com distinção até 1947, quando começaram a ser substituídos por modelos mais modernos, como os famosos Consolidated PBY-5A Catalina. No entanto, seu serviço não terminou abruptamente. Após serem retirados das missões de patrulha de primeira linha, os antigos Rangers foram transferidos para a Escola de Aviação Naval, onde encontraram um novo propósito como aeronaves de instrução, ensinando novas gerações de pilotos e navegadores os segredos da aviação sobre o mar. Somente entre 1949 e 1950, eles foram finalmente desativados de vez, encerrando um capítulo brilhante. Mais do que simples máquinas, os P2Y Ranger representaram o pioneirismo da aviação naval argentina, deixando um legado de profissionalismo, audácia e soberania que ecoaria por décadas na história do país.
Ficha Técnica
Categoria / Especificação:
Tipo: Hidroavião de patrulha marítima
Fabricante: Consolidated Aircraft Corporation
Tripulação: 5
Comprimento: 18,82 m (61 pés e 9 polegadas)
Envergadura: 30,48 m (100 pés)
Altura: 5,26 m (17 pés e 3 polegadas)
Área Alar: 132,85 m² (1.430 pés²)
Peso Vazio: 4.967 kg (10.950 lb)
Peso na Decolagem: 9.005 kg (19.852 lb)
Peso Máximo na Decolagem: 9.549 kg (21.052 lb)
Motorização: 2 × motores radiais Wright R-1820-88 Cyclone
Velocidade Máxima: 203 km/h (126 mph)
Teto de Serviço: 3.414 m (11.200 pés)
Autonomia: 2.816 km (1.750 milhas)
Autonomia Máxima: 3.299 km (2.050 milhas)
Capacidade de Combustível: 4.542 L (1.200 galões americanos)
Armamento: 3 metralhadoras móveis .30 (7,62 mm)
Carga Bélica: Até 907 kg de bombas ou cargas de profundidade
O P2Y-2 foi uma versão do P2Y-1 que recebeu motores R-1820-88 mais potentes, instalados em nacelas aerodinâmicas integradas ao bordo de ataque da asa superior. Pelo menos 21 aeronaves da versão P2Y-1 foram convertidas para o padrão P2Y-2.
Bibliografia
Ginter, Steve. Consolidated P2Y Ranger. Série Naval Fighters, nº 96. Steve Ginter, 2013
Swanborough, Gordon, and Peter M. Bowers. United States Navy Aircraft since 1911. Annapolis, MD: Naval Institute Press, 1968 (e edições posteriores).
Rickard, J. "Consolidated P2Y Ranger." HistoryofWar.org, 8 de agosto de 2008.
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